ARROZ-COM-FRANGO

Dia desses levei meus pais a visitar uma irmã dele, que veio passar uns dias na casa de sua filha e genro, meus primos. Ela nos preparou arroz com frango, tão gostoso, que parecia ter sido feito no fogão a lenha.

Durante o jantar, meu primo Zé começou a falar mal dos religiosos e das religiões, e, claro, mais ainda da Igreja. Afirmou não entrar numa Igreja há uma década, mas garantiu saber o suficiente para colocar todos dentro do mesmo balaio.

Deduzi que ele não lera um livro oficial da Igreja – a começar pelo Catecismo – e que o santo livro ele ‘conhecia’ sob o equivocado hábito de abri-lo ao acaso ou ler só ou mais as passagens que lhe interessam, interpretando sob visão míope e unilateral (comum entre ingênuos e os parasitas da boa fé alheia – inevitável em empresas travestidas de igrejas).

Insistiu que eu concordasse com suas verdades ou discordasse para que ele pudesse me ‘ensinar’ (disse isso mesmo).

Tamanha foi sua insistência, que respondi: “Não vou entrar na sua conversa, pois em cinco minutos você falou tanta coisa errada, tanta bobagem, que é melhor calar a chamá-lo de burro ou toupeira; afinal estou na sua casa!”

Ele retrucou que sou igual a “todo mundo”, que não sei nada de religião e de Deus; e continuou ‘ensinando’ como o Criador pensa e faz (e não estou exagerando).

Eu disse: “Faça o favor de mudar de assunto que quero continuar jantando!”

Ante minha grosseria, ele mudou o assunto; logo saí à francesa, com peso na consciência quanto ao meu pai ter ficado a sua mercê e fui ter com a mulherada na sala!

Como inúmeras boas pessoas, meu primo tem preguiça de estudar, conhecer, aprender, reaprender, observar – em fontes seguras (e saber identificá-las) – para depois se arriscar a querer definir conceitos, opiniões e ações, e, principalmente, sair por aí a ensinar; e continuar aprendendo, atento às próprias limitações, sujeições ao erro e à dúvida, às incompreensões de outros e as de si próprio. Durante toda a vida e não somente para assuntos transracionais.

Talvez, o melhor teria sido ficar quieto e não o contrariar em sua casa, reconheço. E rezar – por nós. Imperfeito, nem sempre consigo definir quando calar é adequado ou é prática de covardia e omissão…

Sugeri a ele porção de opções de aprendizado a respeito da Igreja, de outras religiões e até seitas, para que futuramente possamos tentar começar a dialogar, apesar do risco da permanência de divergência.

Acho que ele fará o mais fácil e que milhões de pessoas escolhem: nada; se fizer, o será com o já citado erro da preguiça, acrescida de obtusidade. De coração, tomara, eu esteja errado e ele venha a ser mais uma exceção.

Embora repleta de fofoqueiros, invejosos, orgulhosos, supersticiosos, ignorantes da doutrina, preguiçosos, omissos, alienados, fanáticos e até desonestos (o mesmo se dá em todas as religiões de verdade e de fachada), a Igreja Católica Apostólica Romana é Santa e  não tem como ser diferente: é a Igreja fundada pelo próprio Cristo e não por alguém que não quis ou não soube conviver com os demais irmãos. A Igreja também é repleta de santos, mesmo que falíveis, e é utilíssima à humanidade, em todos os tempos, inclusive, hoje. Mesmo ateus, não cristãos, protestantes, pentecostais e neo pentecostais, se a estudarem e conhecerem, com inteligência e sensatez, o atestariam, ainda que dela não participem ou discordem doutrinalmente.

Em tempo: vítima de outro dos meus defeitos, levei uns dois quilos do arroz com frango, e foi um sucesso lá em casa, após, como de hábito, me dizerem: “que vergonha” (e comerem e lamentarem ter acabado…)!

 

José Carlos de Oliveira

jc@radioplena.com.br – fb.com/oliveirajosecarlos 

Publicado originalmente em 1 de fevereiro de 2013