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Na minha infância, em família, aprendi que ao avião pequeno, antigo e, principalmente, frágil, mal cuidado e superado, chamava-se teco teco. Por outro lado, ao mencionar avião moderno, antes e hoje, imagino que palavras corram risco de serem coadjuvantes das manifestações de admiração ante sua imagem e performance: o conforto, o vôo, as decolagens e pousos. Com ambos se pode chegar ao destino ou ‘cair’ mas as diferenças entre eles são colossais. Não entendo de aviões e apesar do brasileiro Santos Dumont ter se suicidado de desgosto por ver sua invenção utilizada na guerra, a qualquer pessoa é dado saber que essas máquinas maravilhosas só saem do chão e se constituem em êxito comercial, primeiro, após anos de rigorosos estudos, projetos, testes etc, num processo de permanente evolução, que jamais acaba; segundo, se e enquanto alcançarem o interesse e respeito do seu público: clientes. Salvo exceções, em todas as atividades o êxito se alcança sob maior esforço e dificuldade, inevitavelmente, convivendo.

Dia desses, era atual dizer que detêm o poder quem detêm o conhecimento. E multidões continuam longe de possuí-lo, até em temas elementares. E já se diz há tempos – e faço coro – que detem o poder quem partilha o conhecimento! Para partilhar, é preciso conviver com os de mesmas ideologias e os de outras; com os que não exercem as mesmas atividades profissionais nem postulam os mesmos cargos e também os que concorrem; questionar aos outros e a si mesmo; ser ouvido e ouvir; esperar mudanças e aceitar mudar; perceber e acusar o erro e também o acerto, dos outros e de si; estudar, aprender, reaprender; começar, recomeçar; caminhar junto! Quem age sob tais premissas, mesmo incapazes de garantir só acertos e alegrias, é resultado de processos longos, complexos e infindáveis, tais quais o são os mais atuais ou futuristas dos aviões. E quem não as percebe e pratica ou faz troça delas condena-se a ser teco teco. Estas premissas antiquíssimas são o que há de mais avançado em ‘tecnologia’ comportamental e empresarial.

Por essas e outras, o não engajamento às causas das coletividades periga reduzir o não engajado à condição de um teco teco. A satisfação plena ou maior de objetivos e necessidades individuais se consegue coletivamente: se não todos, seguramente uma porção dentre os mais importantes. Quem se esforça por conseguir melhorar as justas condições de trabalho, estudo, lazer, enfim, de vida, de uma coletividade da qual participe, terá corrido enorme risco de se aperfeiçoar enquanto lidava para contribuir com a conquista coletiva.

É preciso respeitar opiniões contrárias. Há quem não queira partilhar fraquezas, forças e ideais,  achando que pode viver isolado no meio da multidão, e vencer na vida. Ou tenta e sai ou fica descontente e descrente, esperando demais, acreditando de menos.

Esta prática simplória, acessível, moderna e eficiente não impede eventual sucesso de quem queira voar sozinho, porém, pela união e ação organizada, facilita o caminho, multiplica oportunidades, resultados e sua manutenção: no plano individual e coletivo.

Pode haver comboio de teco-tecos e de aviões modernos; idem, quanto ao vôo solo. Deve haver precisão na manutenção e condução. Teco-teco ou avião moderno, repito e concluo: com ambos se pode chegar ao destino ou ‘cair’ mas as vantagens de um em relação ao outro são colossais.

 

José Carlos de Oliveira

jc@radioplena.com.br – fb.com/oliveirajosecarlos 

Publicado originalmente em 1 novembro de 2008