rabo

Nem sempre um dito popular é aplicado de modo equivocado. Dia desses, me submeti a um: “Quem diz o que quer, ouve o que não quer!”

Comuniquei o encerramento de uma parceria que acumulava mútuas insatisfações e compelido pela dor no “órgão mais sensível do corpo humano”, o bolso. Escolhendo as palavras, clarifiquei que a gota d’água foi a inadimplência da outra parte, entretanto, deixei escapar um modo mais pesado de dizer a mesma coisa. Foi um deslize, mas não muda o resultado.

A resposta, como esperado, expunha os motivos de lá, que antagonizavam com os de cá. Sem grosserias, diga-se: não há vilões neste encerramento. Fui lembrado que também sou inadimplente, verdade que eu próprio comunicara no início. Aquela ingênua mania de emprestar o nome para terceiros fazerem suas compras ou fazer negócios nos quais o nome da gente é que vai para a berlinda é algo com que rapidamente você se envolve, demora a se livrar, tanto mais se o favorecido não arcar com os compromissos. Não foi muito e ainda falta um pouco, o suficiente para que tivesse escolhido melhor as palavras.

Quem deve e não paga o faz por desonestidade, falta de organização ou imprevisto a partir do qual os critérios e possibilidades de pagamento podem entrar em desacordo com a opinião, vontade, necessidade e tolerância do credor, ainda que não haja má-fé das partes envolvidas.

Inadimplente é o que é, apesar dos diversos motivos que a isto conduzam. É como um automóvel avariado: se foi imperícia do condutor, de terceiros ou acidente natural, em que pese as diferenças de causas, o resultado será o visual depreciado e a avaria, a despesa para consertar e o impedimento momentâneo do uso, além de desgaste emocional, perda de tempo etc.

Até as pessoas mais sensatas incontáveis vezes incorrerão no deslize de sentar sobre o próprio rabo de palha e falar dos rabos dos outros, inclusive dos amigos e confiáveis, quanto mais dos quais tenham divergência ou antipatia; e nem importa se é desconhecido aquilo ou aquele de quem se fala negativamente.

Se apreciamos ter fósforo e isqueiro a mão mirados nos rabos de palha dos nossos divergentes de ocasião, lembremos que eles e nossos simpatizantes também têm nas suas mãos farto estoque de fósforos e isqueiros mirando nos nossos fundilhos!

Sensato é quem vai se educando para antes de usar fósforo e isqueiro lembrar que atear fogo costuma ser rápido e apagar costuma ser demorado, difícil ou impossível: caso em que jamais se poderá retornar ao que havia antes da queima – algo horrível, se antes significar justiça e verdade, e após, injustiça e mentira. Esta educação é o melhor modo de tirar o nosso da reta ao máximo e de, quando vitimados, serem boas as chances dos fósforos e isqueiros alheios possuírem pouco poder de fogo, dado os incendiários contarem com pouca ou nenhuma razão.

Se todos somos sujeitos ao erro, se temos interesses e opiniões diversas entre nós, se até quando acertamos e fazemos o melhor por nós e pelos outros haverá quem diga que erramos e fizemos o pior, e se damos semelhante recíproca por aí, então, cada pessoa é possuidora de um enorme e altamente combustível rabo de palha – que pode ser diminuído por intermédio dum comportamento crescentemente melhorado, mas permanecerá perenemente inflamável.

De vez em quando lembro que meus escritos e falas destinam-se às pessoas dignas. As que não são nem me ouvirão ou lerão, ou, darão risada das tolices que emiti, segundo elas.

Enfim, o diálogo e a negociação poderão resolver ou miniminizar diferenças, e a lembrança de que as aparências nem sempre conduzem às melhores conclusões poderão ajudar. Se de vez em quando concluiremos ser adequado ou menos pior apelar à Justiça (embora nem sempre justa, a depender do bolso, do poder e da fama do eventual interpelado), na imensa maioria das vezes, para uma civilizada convivência e evolução pessoal e profissional, mirar menos os rabos de palha alheios e cuidar melhor dos nossos é uma simples, viável e saudável prática.

José Carlos de Oliveira

jc@radioplena.com.br – fb.com/oliveirajosecarlos 

Publicado originalmente em 20 de janeiro de 2012