Nilton

Se a conversa caminhar para um embate acalorado nascerá oportunidade de ele pedir “só um minutinho, por favor,” e insistir até conseguir. Tanto melhor se o assunto for política. Se for futebol, religião, segurança pública também servirá. Até por que, invariavelmente, dar-se-á um jeito de estabelecer acertos e erros, certos e errados, sob o prisma da política ou politicagem, conforme ponto de vista de cada um dos partícipes do embate da vez; desde que, ao final, aquele que impôs seu pedido de “só um minutinho, por favor,” seja declarado, por ele mesmo, o vencedor da pendenga, pouco ou nada importando quem, enfim, tinha mais ou alguma fundamentação em seus argumentos.

Se entre os partícipes do embate alguém for estranho ou ainda pouco íntimo do criador do bordão a pedir preciosos sessenta segundos de atenção, as chances de o embate não acontecer ou não acalorar serão maiores, eventualmente. Aos íntimos, caberá a certeza do embate acontecer; quanto mais íntimos, mais acalorado será. Desavisados poderão incorrer no erro de deduzir ser melhor manter distância ou limitar a intimidade a nada ou quase. Ledo engano.

Aqueles que desfrutam da amizade do detentor do indefectível bordão sabem que quando, previsivelmente, escutarem “só um minutinho, por favor,” tudo não passará de mera formalidade: ele falará, queiram ou não. Se tardarem em atender ao pedido o farão apenas e tão somente para que mais lenha seja jogada ao fogo, esquentando suas próprias cabeças e vendo corar a cara do solicitante do ‘minutinho’, fazendo proliferar suores, testas franzidas, lábios secos, vozes alteradas, gritos, respirações ofegantes, impropérios e até despedidas truculentas para nunca mais.

Por contraditório que pareça, os anúncios de despedidas definitivas, se vez ou outra acontecem, dia seguinte foram e serão solenemente ignorados, pois que, sua única utilidade além da enésima exasperação com diversão da véspera, foi, tem sido, é e será fortalecer amizades longevas, inquebrantáveis, admiráveis.

E por que é assim?

Ao longo do convívio com o habitual solicitante de “só um minutinho, por favor,” se vai aprendendo que ele, tendo sido atendido ou não em sua solicitação, tendo conseguido impor sua opinião e sentença ou não, tendo todos – até ele – certeza que muitas vezes é mera bravata, se vai conhecendo os seus demais defeitos; afinal, quem não os tem?

Ao longo do convívio com o habitual solicitante de “só um minutinho, por favor,” se vai aprendendo que a soma de todos os seus defeitos resulta em insignificância ante a grandeza de suas virtudes, destacando-se o bom humor constante, propensão a ajudar sempre, tirando de si em favor de quem lhe peça, aos verdadeiros amigos do peito e até os matreiros“amigos da onça”.

É para isso que servem os verdadeiros amigos: suportarem-se uns aos outros, nos melhores e, principalmente, nos piores momentos. Eis que o habitual solicitante dos preciosos sessenta segundos é garantia de suporte amplo, geral e irrestrito: é um pequeno homem com coração gigante!

Especificamente neste dia quinze de fevereiro, pudéssemos nós, os seus amigos, acrescentaríamos dez segundos aos sessenta contidos no minuto que sempre exige da gente, numa singela e sincera homenagem ao digno, solidário e querido amigo.

Parabéns, amigo Nilton Jovito Dietrich, pelos seus setenta anos!

 

José Carlos de Oliveira

jc@radioplena.com.br – fb.com/oliveirajosecarlos 

Publicado originalmente em 15 de fevereiro de 2015