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A qualquer hora, temos certeza de estarmos mais certos que os outros, por mais errados que estejamos, por menos que saibamos: raramente admitimos isso, tampouco à frente de quem criticamos; porém, geralmente, é o que pensamos, por causa de sentimentos e ações resultantes de rancor, soberba, intolerância, ciúme, obtusidade, inveja… Ora conscientes, ora não. É da natureza humana. O problema decorre do abuso.

Devemos evitar ser motivadores a que mais irmãos caiam na conversa fiada de oportunistas auto eleitos tesoureiros de Deus e donos da Sua Palavra: gente sem conhecimento e preparo suficientes, ou que não sabe conviver, ou interesseira e, com excelente visual, voz, discurso e carisma, fisga pessoas carentes emocional e financeiramente; especialmente, gente católica praticante ou com algum engajamento, mal informada e mal formada, talvez, mas, por vezes, decepcionada com os atos e falas de católicos engajados, de faz de conta e necessitados duma reforma ampla, geral e irrestrita.

Pode-se dizer que quem deixa de ser católico é porque de fato nunca o foi mesmo. Ou era, mas, fraco, desistiu ante os primeiros problemas ou uma grande decepção. Pode ser; mas não são justificativas parciais e escapistas? Somos todos inseguros ou sujeitos à insegurança, em diferentes intensidades, variando conforme momentos e circunstâncias. Alguns apresentam elevadíssima resistência, mas podem fraquejar, vez ou outra. Dentre os mais fracos pode brotar um momento de enorme força. Por isso a vida em grupo, família e em comunidade é repleta de cristianismo: somos todos imperfeitos e limitados, porém, se da diversidade fazemos surgir a unidade, amparamos e somos amparados, aprendemos e ensinamos.

Quantos dentre nós têm grandeza suficiente para admitir que um ateu ou praticante de outra denominação religiosa – qual seja – pode ter uma vida extremamente digna, repleta de respeito pelo próximo (e seus hábitos e crenças), pelo meio ambiente, pelo trabalho etc?

Vários são os motivos para uma pessoa se afastar da fé e da religião católica: mídia pregando individualismo, materialismo e consumismo; drogas, corrupção e impunidade; seitas e pregadores de mil matizes garantindo a posse da verdade e da salvação, apresentadas de modo agradável a incautos, desesperados e abandonados. Porém, o mais ridículo e inaceitável, não seria, digamos, o contra testemunho dado por gente de dentro da Igreja dita fundada pelo próprio Cristo? Ou seja, nós mesmos? Como e quando?

Costumo dizer que nossa consciência é fiel aliada de Deus. Assim, ainda que limitados e parciais em pseudo causa própria, cada um de nós sabe quando foi (é) uma farsa distante do bem de Deus: ao fazer de conta que participou da celebração da Missa; simulou servir para se servir; representou ser humilde enquanto massageava a própria vaidade; elogiou à frente e criticou às costas; disse não podendo ter dito sim; desejou boa sorte em palavras e o fracasso alheio em pensamento; viveu dizendo ser solidário, mas morreu de inveja; tratou o cônjuge com flores em público e pedras entre quatro paredes; simulou fidelidade enquanto adulterava; encenou escutar mas foi surdo ao pedido alheio; fez da religião mero ato social, político e de lazer ou um esconderijo das responsabilidades/dificuldades profissionais e familiares; teve compromisso com os que estão bem, mas fugiu dos realmente necessitados; e por aí vai. Ah… Isso inclui, significativamente, aqueles aos quais ecoa mais fortemente o lembrete de que a quem mais é dado, mais será cobrado. Ou seja: padres, freiras, seminaristas, lideranças leigas, notadamente as mais estudadas, e os praticantes em geral. Isso não é um vexame?

Por outro lado, o Deus de infinita bondade, cremos, está sempre à espera de que finalmente cada um de nós pratique mais com o coração, e menos com falação e encenação, o Evangelho. Por mais que tiremos folga d’Ele, Ele não tira folga de nós. É nossa sorte e esperança.

Entretanto, alguns críticos das três religiões monoteístas dizem que elas terceirizam a responsabilidade do crente, colocando tudo nas costas de Deus. O católico fiel, informado, engajado e consciente, sabe que isso não é verdade; muito pelo contrário. Só que é preciso estar alerta, não para satisfazer críticos e sim para investir a vida terrena na pavimentação da salvação eterna – a de si mesmo (a verdadeira ação em causa própria) – e a dum monte de outras pessoas: condição inseparável da vida de cada cristão, a mostrar que Deus não é desculpa para nossas falhas; Ele é motivo das nossas atitudes, apesar delas.

Eis aí, o tamanho da nossa responsabilidade.

 

José Carlos de Oliveira

jc@radioplena.com.br – fb.com/oliveirajosecarlos 

Publicado originalmente em 1 de fevereiro de 2007