sol_brilho

Uma crítica cruel, principalmente quando se mostra verdade, contra as três grandes religiões monoteístas é a de que seus seguidores terceirizam responsabilidades, colocando a solução dos seus problemas nas mãos ou costas de Deus; e não fazem a parte que lhes cabe. Além do infindável repertório de desculpas de que se fez isso ou aquilo, ou não, aconteceu assim ou assado,  dum ou  de outro jeito, por ser a vontade d’Ele. E do uso indiscriminado e impensado do Seu nome, via de regra, sem fundamento e tampouco respeito, caso em que se inclui também gente menos ou nada religiosa.

Quando se saboreia o milagre de encontrar um religioso sereno, sensato e estudioso da doutrina à qual aderiu, sendo o observador sagaz, capaz e honesto, concluirá que, em essência e ressalvadas as especificidades de cada uma, as três religiões propõem e propiciam um viver repleto de paz, amor e alegria ao religioso e às pessoas com as quais convive. São propostas cheias de moral e ética; estas, acessíveis, compreensíveis e aprazíveis também aos ateus, agnósticos e adeptos de outras religiões.

É Babel eterna. Por exemplo, ao citar a religião que contempla a maioria da população brasileira, na sua origem duo milenar bastava dizê-la o Caminho, logo, Cristianismo e daí Catolicismo (do grego, para todos, universal). Qual nada: sempre houve e haverá divergências humanas para as coisas divinas. Entre as primeiras comunidades cristãs a falta de atitude cristã já estorvava.

Entre católicos, ortodoxos e protestantes históricos ou reformados há atitudes visando a construção de uma realidade mais condizente com Cristo: que a diversidade seja tão saudável quanto inevitável e incapaz de matar a unidade. Entre estas e as denominações mais recentes as diferenças são quase insuperáveis: o discurso de tolerância por vezes fede a mentira. Facilmente diz-se que “eu respeito a sua religião”, mas, fica implícito que eu estou certo e serei salvo, você está errado e será ferrado. Como estragar é mais fácil que consertar, as pessoas vão nascendo e aprendendo dum modo que lhes é apresentado como o melhor e o correto, por mais errado ou equivocado que seja. Há, então, respeito e tolerância, mas, não tanto, mais “pra inglês ver”; não é grande a esperança de aproximação e pequena a evolução concreta. Desistir não convém: não condiz com a genuína proposta cristã.

É cômodo divergir e fugir.  Geralmente, mais por causa do conflito e confronto de vaidades e interesses pessoais; menos, por motivos realmente procedentes. Entre as denominações hegemônicas, históricas, tradicionais, sérias e fundamentas, sempre pulularam pilantras e hipócritas; nunca será diferente e jamais deveria por em dúvida a seriedade do todo e dos demais. Entre as denominações novatas, recentes, minoritárias e sem fundamentação consistente, sempre haverá o crente honesto e de boa fé; o que não confere coerência quando a doutrina é insustentável, nociva e conflitante com a denominação de cristã.

Antes e depois de Cristo, malandros e intransigentes se proclamam tesoureiros de Deus ou portadores da Palavra d’Ele. Hoje, em nome do Deus Pai ou do Deus Filho e do Espírito Santo, existem dezenas de milhares de denominações e duvido que haja alguém capaz de afirmar quantas exatamente.  Também duvido que o processo tenha reversão. Quem se afasta e funda uma denominação que acomode a sua vontade e interesse, em nome de Cristo, inapelavelmente será vítima do mesmo processo: cedo ou tarde alguém divergirá dele, abrirá a sua própria porta e sobre ela aplicará a respectiva “placa de igreja”, certo de que o certo é ele, qual seja sua real intenção. E é incrível como basta ter algum carisma e capacidade de comunicação, ainda que repleto de mediocridade, desconhecimento e até má intenção, que se consegue um rebanho prontinho pra crer e manter aquele novo auto proclamado enviado, porta voz, embaixador e, especialmente, cuidador do dinheiro de Deus. Rádios, televisões, jornais, internet e discursos nos nossos portões ou portas, principalmente nas manhãs de domingo, dão exemplos diários de quanta bobagem e segundas intenções se pode dizer em nome d’Ele. Nas periferias, entre os menos instruídos, mais excluídos, então, nem se fala. E não somente entre eles.

Todas as denominações se garantem cristãs, por menos que o sejam, portanto, nenhuma aceita ser taxada de seita, empresa, negócio de família, cabide de empregos, palanque eleitoral etc (há algumas religiões e incontáveis dissidências delas). É polêmica invencível. Penso que qualquer pessoa inteligente, observadora, sensata, estudiosa do assunto, assumidamente não cristã, poderia perguntar: que cristianismo é esse? A considerar verdadeiro tudo o que se atribui a Cristo, não seria reduzidíssimo o número de verdadeiros cristãos?

No País majoritariamente cristão, os católicos e os evangélicos, como em geral são atualmente chamados os dissidentes sub divididos em múltiplas denominações diferentes e desunidas (menos quando simulam união para aumentarem números e confrontarem o catolicismo), têm em comum: se dizerem seguidores de Cristo, desde que o braseiro seja puxado para a sua própria sardinha; ignorarem ou rejeitarem serem todos igualmente católicos e evangélicos; fé com mais superstição que fundamentação, adesão religiosa com mais aparência e conveniência do que compromisso; generalizada ignorância de princípios basilares da Bíblia, de teologia, de liturgia, história e fundamentos do cristianismo (apesar da facilidade com a qual se depara com falastrões convictos de que são professores de Deus); cegueira, preguiça e desinteresse pela busca em fontes minimamente seguras de formação, informação e atitude, para o razoável e crescente conhecimento da doutrina abraçada e de outras, para respeitá-las ou refugá-las ao descobri-las como outro mero engodo.

Há exceções, claro, que pelos seus testemunhos reais e abnegados fazem crer que vale a pena ser cristão (como também judeu e muçulmano; e budista, hinduísta, xintoísta etc, cada qual sob suas premissas doutrinárias), se houver coerência, honestidade e inteligência para viver aqui, onde quase tudo é palpável e visível, sob os princípios de que há uma vida eterna, à qual só a fé pode admitir, a esperar quem faça por merecê-la.

É maravilhoso ter fé no invisível. Mas não fé ignorante, sectária e fanática: esta só favorece aos donos e ‘funcionários’ das inúmeras ‘religiões’ mercantilistas e a tantos outros parasitas da boa fé alheia, escondidos em todos os segmentos da sociedade, inclusive, nas religiões sérias. Sempre foi assim; o que não quer dizer aceitar como ovelhinha mansa ante a tosquia iminente e persistente.

Tem muito desempregado ou mal empregado por causa das tolices que aprendeu e faz em nome de Deus; e outros, com boas chances de conseguir novo emprego ou ascender no atual, por viver sua fé serena, sensata e inteligentemente. Também para empreendedores e demais setores do viver, é questão de escolha e, antes e sempre, de perceber, discernir, escolher e coragem para confirmar ou corrigir, continuar, parar ou começar, enfim, evoluir.

Perguntas? Também as tenho em profusão. Só desconfie e dispense os obtusos e oportunistas que têm resposta pra todas elas, em nome de Deus!

 

José Carlos de Oliveira

jc@radioplena.com.br – fb.com/oliveirajosecarlos 

Publicado originalmente em 14 de outubro de 2007