ombro amigo editado

Tanto quanto eu, você também deve ter uma relação de argumentos prontos a dizer a quem esteja passando por momento difícil. Manifestações de solidariedade, compreensão, apoio, motivação, orientações e até certezas de que fazendo exatamente o que e como dissemos, melhoras virão e até soluções completas, por mais improváveis que possam parecer.

Tanto maior será nossa alegria ou tristeza, preocupação ou tranquilidade, lembrança ou esquecimento, ação ou omissão, torcida ou indiferença, comprometimento ou desleixo, quanto maior seja o grau de afetividade com a pessoa em questão. Isso é natural e aceitável. Há que ter cuidado para evitar exagero: para mais, tornando-nos pegajosos, chatos e complicadores da situação pré-existente; para menos, individualistas e egoístas. Pessoas verdadeiramente solidárias e voluntárias em prol de outras que, em geral, sequer são suas conhecidas, experimentam algo gratificante: fazem bem o que podem por outrem, sem nada esperar em troca, tampouco divulgação e reconhecimento público. E é aí que ganham recompensa que não se paga com dinheiro e que não se consegue descrever a contento, em palavras, mas que se sente intensamente.

Milhares de pessoas estão ao microfone, na televisão, num chat, site, na tribuna, no presbitério, no púlpito, numa sala de aula, numa assembléia sindical, coluna de jornal ou revista, nas agências de empregos, enfim, prestando sua solidariedade e orientações para desempregados. Muitas, com razoável ou grande conhecimento, utilidade, coerência e sinceridade. Outras, melhor fariam se caladas ficassem; dentre essas, grande parte simula interesse pela coletividade, mas, só pensa em manter o próprio emprego, benesses, status etc.

Quantas vezes eu vi mulher ou homem literalmente chorar desesperado, tendo dívidas a pagar, família sob necessidades básicas, e sem vislumbrar nenhuma solução imediata ou rápida. Mais que selecionador ou consultor, fui o ombro amigo, que ouve, pouco ou nada fala e presta solidariedade suficiente para alívio momentâneo ou pouco mais que isso. Comumente, essa gente boa a procura de recolocação pressiona ou lamenta-se, equivocada e desesperada, como se isso lhe aproximasse do emprego: o resultado tende a ser exatamente o oposto. Profissional como eu, sequioso pelo aspecto social e não somente comercial, flagra-se impotente ante tanta gente disposta, bem preparada e, também por isso, à margem do mercado de trabalho.

Há uma multidão antagonista desta gente a qual me refiro: criaturas que choram lágrimas de crocodilo, parasitando e atrapalhando as pessoas sérias que querem emprego, querem empregar e viver dignamente. Este texto não fala deles.

Se você é alguém que não vê aquela luz no fim do túnel e sente que todos aos quais recorre batem a porta na sua cara, provavelmente, está certo, e errado também. Como diz o adágio popular, pimenta no olho do outro é refresco: a indiferença é grandiosa. Quanto maior a pindaíba, não só financeira, e o tempo nela mergulhado, mais se tende a chorar, lamentar, desacreditar e, pior, ficar fora de forma para agir e reagir, ante a tão procurada oportunidade. Sob tal condição, no momento de tamanha fraqueza ou fragilidade, os realmente melhores e mais fortes teimam em encontrar aquela força extraordinária condutora ao êxito necessário e merecido.

Vivemos a cair. O que distingue os fracos e os fortes é que aqueles costumam aceitar passivos cada queda e fazer-se de vítimas; e estes são pré-dispostos ao esforço de levantar de novo, e de novo…

Tem quem abra portas pra gente. A qualidade e intenção deles é diretamente proporcional ao que vêem em nós. Assim sendo, depende de nós a qualidade das portas que serão ou poderão ser abertas. Na verdade, nós é que abrimos as portas: as pessoas que parecem ter as mãos nas maçanetas, só dão passagem, com prazer e consciência do acerto em fazê-lo.

 

José Carlos de Oliveira

jc@radioplena.com.br – fb.com/oliveirajosecarlos 

Publicado originalmente em 11 de novembro de 2007