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Desde a adolescência, sou dos poucos que tentam ir aprendendo a usar água com economia e respeito pelos que não a têm potável e disponível; a separar lixo reciclável do orgânico; a não deixar restos de comida, que estaria além da minha gula e faltaria para matar a fome de outros. Sujar ruas, rios e praças, nem pensar.

Salvo mudanças, minha profissão não exige automóvel. Consumi dois anos para criar coragem de deixá-lo, com a preguiça, e usar o transporte coletivo: já durante uns anos, contribuo com menos emissão de gás carbônico, leio na ida e no retorno ou volto a pé para casa. Quando preciso dele para fins profissionais, a despeito da comodidade, logo tenho saudade de estar a bordo dum ônibus seguindo, na pista exclusiva, mais rápido que veículos presos aos inevitáveis congestionamentos. Apesar das inaceitáveis superlotações, atrasos e esperas além do razoável; e da falta de higiene e educação de alguns usuários. É emblemática a mais ignorada gravação: “ao embarcar nos ônibus, aguarde sempre o desembarque”; quem aguardar, com plenitude de civilidade, arrisca-se jamais conseguir embarcar.

Não creio em reversão do quadro de catástrofe crescente – comportamental e, por isso, ambiental – mas não desisto e tenho esperança de no futuro ver que eu estava errado.

Ultimamente, dada a insistência de cientistas, os cidadãos conscientes, juntos de outros a caminho de sê-lo, vêem  um monte de gente pegando carona em discursos ecologicamente corretos. Não é raro ouvir nossos representantes, de todas as áreas e níveis, bem como outros formadores de opinião, comunicadores e ‘famosos’, falarem em favor destas causas. Incomum é conhecer algum que realmente pratique o que diz. Quantos desses se vê tomando ônibus? Só um ou outro; em geral, enquanto esteja na pindaíba. Os demais circulam em carros novos e até luxuosos, sob pretexto nem sempre justificável de ser inerente ao cargo, função ou condição; ou sob a desculpa de que o automóvel nem lhe pertence e sim ao povo, comunidade ou grupo representado. Quanto à água, o lixo, a comida etc., há mais exceções louváveis por aí e ainda é pouco, ao menos, para quem se preocupa com o mundo dos adultos que hoje são crianças ou ainda nem nasceram.

Alguém já disse que todo mundo é a favor da ecologia, desde que comece no quintal do vizinho. É como fazer coro àquela meia verdade que proclama que a falta de qualificação dos empregados e desempregados é a grande culpada do desemprego; desde que a desqualificação seja do outro, não de si mesmo. A outra metade é a falta de qualificação dos empregadores e, somadas, não são toda a verdade.

Um hábito estúpido a gente aprende desde o berço e talvez nunca se livre dele. Exemplos: não separar o lixo, jogar papel de bala no chão, deixar a torneira aberta enquanto escova os dentes, fumar, comer demais (meu caso); achar que as mentiras dos currículos e entrevistas serão sempre encobertas ou toleradas, não saber dimensionar a própria qualificação e adequação em relação às oportunidades procuradas, não ter noção do que seja seleção de pessoal.

A todas as pessoas é possível habituar-se a mudar hábitos. Basta querer. É preciso fazer. Eis a questão: querer, qualquer um pode; fazer, só os notáveis.

Notável não é melhor que ninguém, é falível, limitado e não tem êxito em tudo. Quem é notável, simplesmente, tem percepção e coragem de saber que hábitos conservar, iniciar, ajustar ou dispensar. Notável é tentado pelo imediatismo e sucumbe à perseverança.

Todos nós podemos oscilar entre a mediocridade e a notabilidade; e não estão atreladas inseparavelmente aos níveis de instrução, cultura e financeiro. Por intermédio dos nossos hábitos, nos aproximamos de uma e nos afastamos de outra. Mostramos por qual optamos cada vez que usamos a água, e como; nos nossos pensamentos, sentimentos, propósitos e atos.

O bacana é que um hábito pode ser difícil implantar ou retirar: mas não é impossível. Pode demorar, mas quem consegue percebe a diferença entre o antes e o depois, por exemplo: do fumar e não fumar, do jogar lixo em qualquer lugar e separá-lo corretamente, do sedentarismo para a atividade física orientada, do desinteresse pela leitura e pelo vício nela; do fazer currículos e entrevistas estapafúrdios para os planejados e interessantes; do achar que agência de empregos, chefe e patrão são sempre errados e carrascos para saber que por vezes é o oposto.

Os melhores hábitos geram economia, preservam o meio ambiente, conduzem as boas companhias e relacionamentos; claro, finalmente, às melhores oportunidades profissionais.

 

José Carlos de Oliveira

jc@radioplena.com.br – fb.com/oliveirajosecarlos 

Publicado originalmente em 13 de maio de 2007