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Sou amante do rádio. Desde a infância, dormia e acordava ouvindo as emissoras AM e FM. Ainda ouço, não tanto quanto antes, para continuar sabendo que comunicação se faz a cada momento. É mania estendida aos demais veículos, sem afetar a primazia pela predileção ao rádio. Desde cedo, a voz e o modo de falar propiciaram-me centenas de vezes ouvir: “Você é locutor? Deveria ser!” Em que rádio trabalha?” A voz herdei de meu pai e vozeirão não basta: há outros requisitos mais determinantes; suspeitamente, acredito possuir alguns deles. Dos contatos e trabalhos tidos com radialistas, dentre eles alguns renomados e experientes, a maioria resultou em críveis incentivos a que tentasse concretamente alçar vôo nesta área. Aprendi muito com eles.

Sem bater as asas intensa e corretamente, não se consegue voar ou se voa pouco. Sempre fui à luta pelo meu espaço e penso tê-lo conseguido ou estar num patamar bastante significativo. Só que economizei no tempo e trabalho investidos para conquistar espaço em rádio, ficando, quase sempre, fora do ar. Assim é que no meio radiofônico sou o famoso “quem?” Minha angústia aumenta. Preciso finalmente agir acertada, permanente e intensamente para voltar e fixar-me no rádio e provar-me que estou certo ou errado: que sou capaz de comunicar com prazer, qualidade e um diferencial; ou, que tudo não passa de fogo de palha e erro de avaliação.

Não sei quais são seus talentos e vontades; tomara que você o saiba. Também não sei se sobre si incide erro, dúvida ou situação semelhante à que permiti me acometer. Só sei que sobre uma multidão de desempregados, não somente inexperientes, e pessoas em geral, paira série de indecisões quanto a fazer o que realmente crêem ser da sua vontade. Há gente demais padecendo de inércia: no máximo, pensa, mas nem sempre faz ou desiste ante os primeiros percalços. Não estou incentivando mudanças impensadas: a instabilidade emocional e profissional já é um cancro crescente e excludente. Proponho refletir sobre os perigos da estabilidade, quando enganosamente parece ser boa e vai matando em vida e aos poucos a sua vítima, que queria algo mais ou outra coisa, mas, nada fez, por receio de incomodar-se, de mudar; de, ao final, perder o que já tinha, vislumbrando eventual derrota antes de iniciar a batalha. O melhor descanso é antecedido por trabalho e suor. Não existe rosa sem espinho.

Conhecer o mundo que nos cerca é processo fundamental e infindável. O mundo é cheio de armadilhas e ilusões nem sempre percebidas antes de nos pegarem. Passará melhor por essa empreitada quem conhecer a si mesmo com a maior intensidade, sensatez e aproveitamento. Só que, de tempos em tempos, ante cada situação que se nos apresente, será cabível uma atitude concreta. Aí, toda teoria, na prática tem diferenças; toda teoria, sem prática, não se prova.

Errar ou acertar é inerente à existência humana. Somos ora semente, ora terreno e jamais eremitas: dependemos uns dos outros, o que faz com que abramos ou fechemos portas, tanto quanto fazem o mesmo para nós: propositalmente ou não.  Não se diz que a gente colhe o que planta?

Nessa lógica inexata, por contraditório que pareça, oportunidades surgiram para voltar ao rádio e a elas disse não. Ou disseram-me. Motivos? Em suma: achei a programação e doutrina vigentes inadequadas, para além do que posso fazer e me submeter, dignamente; ou acharam-me inadequado. Hoje, tenho três possibilidades: duas mornas e eu torcendo que esquentem; uma é quente e eu torcendo por mais. Todas, resultantes de bons e desinteressados relacionamentos. Não sei no que isso vai resultar e se puder entrar, deverei fazer por garantir, por mérito, longeva e qualificada permanência: após um degrau superado, vem outro. E outro; e outro…

Que você, e eu, não sejamos irresponsáveis de mudar demais e nem por nunca mudar.

 

José Carlos de Oliveira

jc@radioplena.com.br – fb.com/oliveirajosecarlos 

Publicado originalmente em 4 de novembro de 2007