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Ele é um dos assuntos das conversas entre ela e sua amiga e cunhada, coadjuvadas por outros parentes, nos encontros familiares dos finais de semana. Os comentários são elogiosos à pessoa dele, destacando-se a educação, a cultura, a inteligência, a comunicação e qualificação diferenciada nas relações pessoais e profissionais. Em paralelo, comentários indignados com a, na opinião delas, exagerada bondade ou ingenuidade com que ele distribui informações, orientações e ajuda para pessoas nem sempre merecedoras; algumas, inclusive, pela ótica delas, verdadeiras parasitas do intelecto e atitudes dele.

Ela, na sua atividade anterior, até um patamar mediano, fora dedicada e eficiente; porém, numa profissão inserida em área da qual se diz constituída por gente sem qualificação. Trabalha com ele há alguns meses, menos pela insistência com a qual pediu uma chance, mais por ter ele notado nela o caráter, temperamento, a determinação e o carisma típicos de pessoas fadadas ao sucesso e à notoriedade por esforços próprios e dignos. Emersa de boa família de trabalhadores braçais, igualmente à maioria das pessoas, com módicos níveis de instrução, cultura e percepção da sociedade e do mundo, na convicção dele, ela, que já é marcante por ser a mais animada, querida, destemida, teimosa até, já desponta e se consolidará como a pessoa melhor sucedida dentre toda a ‘parentela’. Não para inveja e sim para orgulho deles.

Ele, também entre pessoas tão ou mais cultas, instruídas e vencedoras, com as quais convive e conhecem-no realmente, é habituado a ser bem avaliado e consultado. As qualificações e virtudes que o tornam notável e bem sucedido são as mesmas que o tem colocado em apuros. Algo como a citação do protagonista duma série de TV: “É um dom e uma maldição!” Sua atividade profissional é dependente da qualificação pessoal da gente com a qual trata. Se mais que apenas raras pessoas fossem verdadeiramente um pouco do muito que encenam ser nos seus discursos e máscaras, o mundo seria extremamente melhor. Então, ele enfrenta crescentes obstáculos para realizar o seu trabalho. Quem como ele é, padece do mesmo dilema: integrar-se à maioria e deixar-se corromper, radicalizar no individualismo, afundar na mediocridade, tornar-se mentiroso e omisso; ou, prosseguir como é, se aprimorando, convicto que, às vezes, nas questões mais determinantes, sim, a minoria vence, ainda que pareça perder.

Ela é ‘discípula’ dele, entretanto como sua ‘mestra’ insta-o a não oferecer tanto do seu conhecimento e desprendimento a quem se nega a si próprio chance de aprender, crescer e vencer; e a quem parece recorrer a ele apenas para furtar-lhe o trabalho ou suas ideias e usá-los como se deles fossem. Ela, corroborada pela cunhada, acha que este homem, embora marcante, é ‘bobinho’. N’algumas ocasiões ela deve estar certa: com toda a sua inexperiência e singeleza de formação instrucional e cultural, tem rompantes de admirável sabedoria; ele se compraz e aprende dela.

Ele repete à exaustão: conhecimento é a riqueza que quanto mais se distribui mais se agiganta. Mesmo que abundem os que não queiram recebê-la, os que a distribuem aumentam-na e beneficiam-se. Ser bom não é ser bobo e é preciso cuidar para não se confundir. E todo o conhecimento não garante sabedoria.

Ela continuará tropeçando, ainda e cada vez menos, em conceitos e ações incompatíveis com as grandes pessoas. Ela tem muito a aprender com ele; inclusive, que pode ensiná-lo. Os papéis de ‘mestre’ e ‘discípula’ se invertem e são bem aceitos por ambos. Cada qual tem luz própria e caminha com as próprias pernas. O que não os impede de ceder ou receber a luz do outro para um trecho obscuro. Assim deveria ser mais vezes, entre eles e entre todas as pessoas.

É utopia? É. Afinal, pra que existe a esperança?…

 

José Carlos de Oliveira

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Publicado originalmente em 13 de janeiro de 2008