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Meus amigos me chamam de cainha (ou mão de vaca, muquirana, unha de fome, sovina, Tio Patinhas etc.). Acho isso uma injustiça. Vou dizer algumas coisinhas a meu respeito e você dirá se sou vítima da língua venenosa da rapaziada. Prometi: se me convencerem que sou um tremendo cainha, vou fundar um grupo Country com o nome de Los Cainhas. A quem por acaso a carapuça servir, fica o convite: seja um Cainha também.

Sempre chego na casa de um amigo na hora do almoço ou jantar. Com cara de cachorro magro e, já me sentando e servindo, digo que não quero, não precisa se incomodar, mas, como até me empanturrar.

Aliás, meus regimes começam lá em casa e terminam na casa dos outros. Jejuns, também!

Sou vegetariano lá em casa e carnívoro na casa dos outros.

Carnes nobres como na casa dos outros e carnes pobres lá em casa.

A noite se faz uma refeição bem leve. Dormir com a barriga vazia é sinal de saúde e esperteza, na casa da gente. Na casa dos outros é burrice!

Nas festas de aniversário sou dos primeiros a chegar, belisco de tudo e fico até o final: é a hora de se insinuar para levar aquele pedação de bolo e uma pratada de doces e salgadinhos.

Nas festas tipo americano na casa dos outros, sempre esqueço de levar o meu ou levo aqueles refrigerantes de 2 L baratinhos e intragáveis. Lá em casa só faço festa tipo americano, recomendo o que cada um deve trazer e ligo pra reforçar: – Um empadão grande, viu? Seus filhos não virão? Ah!.. Traga o empadão! Vai trazer croquetes também? Ótimo, quantos centos?

Aos domingos saímos bem cedo. Antes que alguma visita nos venha dar despesa, saímos nós a visitar alguém.

Prefiro o camping ao hotel. Durmo sobre a grama, mas, meu dinheiro não é capim.

Adoro jornais de bairro: a distribuição é gratuita. Os outros? Só a primeira página, nas bancas e editais das próprias editoras. Revistas? Nem todo consultório tem apenas revistas antigas, entende?

Só dou presentes para quem antes me deu também e sempre de valor igual ou inferior ao recebido. Presente que não gosto, ou semelhante ao que já tenho guardo para presentear alguém depois.

Nas lojas de R$ 1,99 peço desconto e cheque pré-datado.

Dizia que não era machista para facilitar a que a namorada pagasse o cinema e o lanche.

Corto o cabelo bem curto e uso barba para ficar mais tempo sem gastar com o barbeiro.

Não tenho cachorro: é menos uma boca para alimentar. Mas nos restaurantes (não perco boca-livre), o garçom deve me achar o mais piedoso protetor dos animais, tamanha a sensibilidade com a qual peço restos de carne para dar aos meus Totós…

Sempre digo, brincando (?), aos meus filhos que as despesas com comida, remédios, estudo, roupas etc., vou cobrar quando ganharem seus primeiros salários.

Não gosto de ser convidado para padrinho de casamento, batizado e nem nada parecido. Digo que me orgulho, só que não mereço a honra: fico arrepiado só de pensar no presente caro que esperam. E vai que os apadrinhados se apertam depois? Aí, penso naquela história que o padrinho é pra essas coisas mesmo… Tô fora!

Adoro bicicleta: não paga IPVA, não gasta combustível, me deixa em forma e ao meu bolso.

Automóvel? Só de carona e com quem não pede ajuda pra gasolina. Taxi, nem pensar.

Incluí no meu testamento a doação do meu corpo para uma faculdade de medicina. Digo que é pela falta de cadáveres para o aprendizado dos alunos. Meus amigos dizem que é para não gastar com velório e sepultamento.

Tenho casa, vestuário e hábitos discretos, para não gastar mesmo. Mas, com o pretexto de não ser escravo do materialismo, digo que sou humilde e prego solidariedade para com os mais pobres. É fantástico: minha hipocrisia me faz economizar e ainda ser elogiado pela minha simplicidade e desprendimento.

Se fundar o grupo Country Los Cainhas, no possível estatuto um artigo dirá: – Todo mês o grupo promoverá uma churrascada na casa de um dos sócios. Parágrafo único: o churrasco será sempre na casa do sócio cujo número seja imediatamente superior ao número máximo de sócios atuais. Assim, se tivermos 26, por exemplo, o churrasco será na casa do número 27 que, por não existir, cancela automaticamente o evento, ninguém gasta e a cainhada sorri feliz.

 

José Carlos de Oliveira

jc@radioplena.com.br – fb.com/oliveirajosecarlos 

Publicado originalmente em 16 de maio de 2006