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MORAL, ÉTICA E RELIGIÃO

Aceitar ou rejeitar ideologias cabe a cada pessoa. Se você acha que este assunto não se discute, pare a leitura.

Que relação pode ter religião com emprego? Moral e ética. Quanto mais suas opiniões e ações forem também morais e éticas, mais você será capaz de realizações pessoais e profissionais, mesmo quando surgir vontade de copiar quem, sem moral e ética, é ou está bem sucedido. Moral e ética podem existir sem religião. Religião sem moral e ética é enganação. Segundo dicionários, moral é o conjunto de regras de comportamento tidas como aceitáveis, plenamente, para qualquer tempo ou lugar, ou para um grupo ou pessoa específica; ética é o estudo dos juízos de apreciação referentes ao comportamento, passível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, relativamente a um grupo ou a sociedade, de modo absoluto. Religião é a crença na existência de força superior, criadora do universo, Deus, adorado e obedecido através de doutrina e ritual próprios, em geral, dotados de preceitos éticos. Significa religar o homem a Deus e a si, tem que ser fiel – ou deveria ser – aos princípios éticos e morais do seu fundador. São definições aceitáveis ou quase; vivenciá-las e discuti-las é polêmica permanente.

RELIGIÕES, RELIGIOSOS, DEUS E CONVENIÊNCIAS

Muitos agrupamentos apresentados como sendo religiões, de tão excludentes a partir dos seus propósitos e métodos, divergem radicalmente da opinião geral e seus fundadores e líderes se sentem ou se apresentam como donos da verdade. Religiões milenares não escapam da falsidade, ignorância e comodismo de muitos dos seus seguidores; nem de críticas e ações externas, ora cabíveis, ora mal intencionadas. Muitos manipulam a fé alheia e usam uma religião ou pseudo-religião para ganhar dinheiro e poder. Tem crente que dispensa religião; o que não o impede de ser ético e moral. Há o que mescle religiões, seitas, superstições, misticismo, a seu gosto, não percebe contradição ou incoerência, mesmo que até possa ser ético e moral. Também há o que muda de religião com frequência ou facilidade, e geralmente convicto que errados são os outros ou a religião/denominação abandonada. E existe um cancro chamado fanatismo, cujo ápice é fazer matar em nome de Deus.

Ateus e agnósticos dispensam fé, Deus e religião; alguns, mais céticos, baseados na razão e ciência, contestam religiosos (e ufologistas, astrólogos, curandeiros, esotéricos etc.), mas, podem ser éticos e morais. Voluntários em trabalhos a-religiosos podem ser úteis, felizes e honestos, mesmo sem fé e religião. Existe conjunto organizado de crenças ou filosofia de vida que alguém diria ser religião sem Deus, e com fundamentos aplicáveis por quem queira viver bem consigo e os que o cercam. Muitos primeiro têm fé e buscam ajuste interior e com os seus mais próximos e só depois, em número menor, interessam-se por alguma doutrina religiosa (o individualismo está em alta).

Quantas são as religiões extintas e existentes? Como distinguir religião de dissidência, seita ou outra coisa, e aceitar as diferenças? Ressalvando os politeístas, se existe um só Deus, Ele é concebido diferentemente, conforme a época, região, costumes, conhecimento e interesses de cada comunidade. Os que se aprofundam em conhecer fundamentos da fé, religião e uma teologia, quando a doutrina conflita com opiniões pessoais, têm a tentação de fazer adaptações favoráveis as suas conveniências. Mais que escutar e falar com Deus, fala-se muito por Deus, o que pode ser uma temeridade, mesmo com boa fé.

É fácil ser religioso dentro da igreja, sinagoga, mesquita etc.; difícil é sê-lo com o que crê diferente e quando nossa vontade não vigora. É fácil ser religioso quando rezamos sós e com nossos irmãos; difícil é quando convivemos e fazemos uma atividade prática, mesmo a serviço da religião e, por isso, as máscaras vão caindo e mostrando as diferenças, preferências e defeitos de cada um, a começar pela intolerância, falta de humildade e pelo pouco conhecimento do que se faz. O fácil já costuma ser difícil.

Há o que não muda de religião, destaca-se como exemplo, mas, faz o que atende sua vaidade e opiniões – ainda que não admita ou perceba; muitos, quando não se sentem em evidência, ressentem-se, afastam-se, procuram outros grupos, até noutros endereços, para praticar a religião. Outros são ótimos para realizar e participar de eventos, arrecadar e administrar fundos, mas, na hora da espiritualidade seu empenho cai ou some e até têm as orações meio que decoradas. Para aparecer na foto, receber elogios e sentir-se importante, ver seu nome num jornal, ganhar votos etc, sobram candidatos. Ao contrário, tarefas que supostamente seriam vistas por Deus e não pelo povo, costuma-se esquecer ou fazer conta esquecer; especialmente as que envolvam sigilo e anonimato. Habitualmente, se despreza reuniões e suas deliberações (salvo se forem de interesse pessoal) e os estudos para o conhecimento do que se faz ou deveria fazer.

O sujeito se diz duma religião ou nenhuma e não costuma abrir mão de gozar com folgas ou festas e presentes o feriado de outra religião; no feriado da sua religião faz tudo, menos praticá-la. Ou, parece disponível, só que costuma ser religioso apenas durante um expediente espiritual, definido por seus reais e maiores interesses. Férias são fundamentais, porém, muitos as estendem ao plano espiritual. Se o sujeito morrer durante suas férias religiosas, será salvo? – ou, se morrer e for recebido pelo seu Deus, com a frase – “Lamento, não posso salvá-lo: estou de férias!”?

Nas celebrações os templos recebem muitos que menos oram e mais acumulam material para, por exemplo, invejar e fofocar. Há quem sequer dissimule. Dentre os mais praticantes, muitos mais ensaiam e decoram o que fazem e menos entendem e sentem.

Nas grandes religiões os líderes costumam receber preparo excelente e o ampliam e renovam; mas nem todos e nem sempre assimilam adequadamente, querem ou conseguem fazer o uso que se espera. Nas religiões menores e recentes (dissidências de religião), o problema é maior – usam símbolos, ritos, vocábulos e outros subsídios de religião(ões) tradicional(is), em procedimentos adaptados pelos conceitos e interesses do(s) fundador(es), mas, com poucos anos de existência, e poucas dezenas, centenas ou milhares de seguidores, qualquer religião ou dissidência de religião ainda é uma incógnita, mesmo se dotada de sério propósito. Qualificado ou não, de religião séria ou não, sempre houve e haverá quem realize na religião não uma vocação digníssima e sim uma profissão privilegiada, sob a indiferença, desespero ou ignorância de uma comunidade; e conivência de alguns pares.

Conscientes ou não, muitos têm o aparente propósito da realização espiritual, mas, de fato, o interesse único ou maior é aliviar o emocional e satisfazer o material. A prática de religião, para muitos, é rito social, feito por imitação, aceitação cega, sem conhecimento e questionamento. Muitos aceitam liderança para satisfazer sua necessidade de status. E para tantos, religião é escape e esconderijo da realidade pessoal, familiar e profissional.

Manifestações comuns, ora sinceras, ora não; ora sensatas, ora não:

Sou voluntário, dou meu tempo livre; não tenho tempo; ninguém manda em mim; não sou profissional; não sou perfeito; foi Deus quem me chamou; não sou eu quem te convida – é Deus; é a vontade de Deus; sou homem (mulher) de Deus; se Deus é por mim quem será contra?; fiz a minha parte; Deus tenha piedade de você; Deus tá vendo…

Tendemos a negar ou não notar nossa ignorância, soberba ou indiferença; o que podemos expressar assim: “religião não se discute”. Se discussão for sinônimo de bate boca ou monólogo é melhor calar; se for sinônimo de diálogo, qualquer assunto pode ser tratado. Sobre nosso conhecimento, tendemos a achar que é suficiente, definitivo, correto ou o melhor; não raro, sentimo-nos melhores ou irascíveis para com os que são ou achamos que são menos sapientes. Tendemos a aceitar sem questionamento a opinião e sugestão de terceiros, se apresentados pela mídia parcial, inclusive, a pertencente a grupos religiosos ou pseudo-religiosos, como sábios, líderes, revolucionários etc, mas, nem sempre, merecedores de todo ou algum crédito a eles dados pelo marketing cada vez mais persuasivo. Já o que vem de alguém próximo, não famoso, não poderoso e não marqueteiro, nossa tendência é não notar, não dar o devido valor, ou desconsiderar e até ridicularizar; e isto se pode sintetizar assim: “santo de casa não faz milagre”. Um medíocre ou malandro famoso influi e convence mais que um sábio anônimo ou que convive ao nosso lado.

Aceitamos só o que agrada nossos ouvidos, têm mais vez orações e ações que não comprometam nosso cotidiano; os problemas se resolveriam e teríamos feito nossa parte: é mais fácil nos condicionarmos a cantar, emocionar, acreditar e esperar por respostas prontas, conversões e milagres. Um líder carismático, bem assessorado e divulgado pode nos bastar. Por outro lado, como quase sempre preferimos terceirizar nossas responsabilidades, então, tememos, fugimos ou combatemos líderes capazes de nos incomodar, sempre que propõem que, embora aprovem cantar e dançar, que nos questionemos e nos comportemos de modo mais condizente com nosso, muitas vezes, cínico discurso de crentes e religiosos. Temos aversão por, além de acreditar, rezar e esperar, também buscar e trabalhar por respostas e soluções, com comprometimento real, o que poderia ser o maior processo de conversão e o mais atingível dos milagres.

Que e quem é moral e ético? Religiosidade e espiritualidade facilitam a que a pessoa seja mais feliz e enfrente melhor suas dificuldades? Tendemos a nos achar certos ou mais certos que os outros e até argumentos consistentes podemos dispensar, principalmente, quando nos sentimos satisfeitos.

TESTEMUNHO

O que se diz religioso, mas, tem moral e ética só quando estas não atrapalham seus verdadeiros interesses, seria um hipócrita? O religioso que não conhece os fundamentos elementares da sua religião poderá gerar contradições aos bons exemplos que porventura dê e informará menos ou errado; como ensinar sobre o que não se sabe? O religioso que não respeita, não dialoga e não convive harmoniosamente com o que não crê ou crê diferente dele, é religioso mesmo? São os tipos mais comuns de religiosos? Ou o mais comum é o certinho, sempre ou desde que se arrependeu e converteu? E aquela pessoa que ao longo da vida várias vezes migra para rebanhos os mais diversos, com seus respectivos batizados, conversões e aceitações de divindades e as verdades e elas atribuídas, sem sequer corar a cara quando, conforme cada mudança, larga compromissos diversos, inclusive, para com os credores de antes?

Mais que se calar, discutir ou dialogar, religião se poderia realizar através de testemunho! Como seria? Um comportamento marcado por, sem excluir outras condições, verdadeira, equilibrada e permanente vivência de moral e ética. Nossa consciência é fiel aliada de Deus, da moral e da ética, é disponível aos crentes e não crentes, e nos possibilita avaliar pensamentos, sentimentos e ações; não com perfeição, mas, com elevado grau de precisão: a cada um cabe decidir o uso. Os verdadeiros testemunhos são abnegados, sabem o que é humildade, não têm “glamour”, raramente percebem ou admitem; apenas vivem e fazem como acham que deve ser. Entre erros e acertos, são os pilares duma religião séria; são exemplos que se pode seguir, quando notados. Um deles pode ser você: de vez em quando ou quase sempre…

RELIGIOSO E RELIGIÃO – EMPREGADO E EMPREGO

Que é comum entre religião e religiosos com emprego e empregados/desempregados? Nada. Ou muito, se você considerar que os temas afetam nossa intimidade, profundamente. Imagine que a religião é o emprego e o religioso é o empregado. Compare sua atuação na religião com a do trabalho. Tire conclusões honestas quanto ao seu comportamento no emprego anterior, no emprego ou desemprego atual e quanto ao que faria no futuro emprego. Para os que creem que a morte não é o fim, o prêmio aos crentes reais não é a salvação eterna ou algo similar? No mercado de trabalho, o prêmio aos melhores não é a manutenção do emprego? O reconhecimento do seu empenho e qualidade? Ascendência profissional? Destacar-se entre os candidatos a novo emprego? Ser empregador no futuro? E, mesmo no infortúnio, continuar apto a ter êxito? Plano terreno ou não, ambos exigem aceitação, rejeição, dedicação, conhecimento, percepção e equilíbrio. E coragem: a quem é possível, com absoluta certeza, saber que todo o investimento feito trará o resultado programado e esperado? Ter fé e religião não deveria ser requisito exigido do candidato a emprego. Quando tem, conta se acompanhadas de moral e ética; e não são alardeadas. Repito: são simplesmente vivenciadas e percebidas. Por experiência digo que quanto mais o candidato a emprego diz – “não se preocupe, José Carlos, eu sou de tal religião” – dando a entender que é melhor que outros ou que seria honesto, maior é a probabilidade de que ele seja uma farsa e o oposto do que diz (geralmente, é o que se confirma).

Quem tem fé, com ou sem religião, pratica-a(s) a contento se respeita os de fé e religião diferentes (mesmo os adeptos de uma das incontáveis dissidências, seitas, correntes sincretistas ou como quer que se possa denominar); sabe o que é e procura praticar o ecumenismo, o diálogo inter religioso e a pluralidade de pensamentos e costumes. Procura ser adequado em tudo que faz. Quem se diz pessoa de fé e religião, mas, enquanto empregado ou desempregado é preguiçoso, incompetente ou desonesto, precisa de arrependimento e conversão e poderia parar de mentir para si e para os outros. O mesmo se aplica ao patrão desonesto e explorador, enfim, aos profissionais e agentes de todas as atividades e lugares. Religião pode ajudar, enganar e alienar. Depende do que você faça com as influências permanentes que recebe: inclusive esta que acaba de ler…

 

José Carlos de Oliveira

jc@radioplena.com.br – fb.com/oliveirajosecarlos 

Publicado originalmente em 15 de fevereiro de 2002