MEU PAI

Pelo ano litúrgico, neste domingo de ramos se completou um ano da passagem do meu pai. Pelo ano civil, neste dia 29 de março.

Compartilhar notícias sobre a tentativa de recuperação dele deu origem a este grupo no WhatsApp com membros de diversas famílias que constituem a grande família a partir de João Paulino de Oliveira e Cecília Maria da Conceição Oliveira. Dizemos família Oliveira e sabemos ser formada por dezenas de sobrenomes…

Alguns parentes, dentre os que conhecem um pouco do que faço, sugerem que me divulgue aqui, principalmente, rádio, palestras, textos, ideias etc. Certamente questionáveis, tenho meus motivos para ser discreto; e estamos aqui para confraternizar e nos aproximar, mesmo que virtualmente. Pela data, contando com sua compreensão, segue um ‘livro’ para quem tiver interesse e paciência para ler.

Mais acertar que errar na administração empática das inevitáveis diferenças de opinião e interesses: eis o desafio constante para que relacionamentos sejam harmoniosos. Diferenças de opinião podem afastar até pessoas que se gostam, caso uma ou ambas não consigam compreender, respeitar o que não coincida com o seu entendimento ou gosto. Que os participantes deste grupo não se magoem tanto e não se irritem quando diferenças aparecerem (e apareceram; e poderão aparecer).

Quando isso acontecer será bom se lembrar do meu pai (seu tio, irmão, avô etc…). Quem não o conheceu bem pergunte a quem teve a oportunidade.

Ele herdou o defeito de falar mal e às vezes discordar grosseiramente de alguns dos seus entes mais queridos. Adolescente, eu me revoltava calado com aquilo. Adulto, há uns vinte e poucos anos, na única vez em que o confrontei, doeu demais. Por suas reações, tive absoluta confirmação de que ele não o fazia por mal, de algum modo, sequer percebia. Se seu defeito era tratável ou não, aquilo nunca mais importou e definitivamente aprendi o quanto o Deus que é bom com todos, fora bom comigo (e Adriana e Inês) na concessão da graça de ser filho dum homem de caráter reto e coração tão puro.

As bobagens que lhe escapavam por entre os lábios nos faziam rir; ou segurar o riso, quando ditas em situações ou presenças que poderiam constranger, para rir depois, contando mais um feito cômico do patriarca lá de casa. E ele ria junto. Há anos escolhi aceitar que tal particularidade se somava àquele defeito para caracterizar a falibilidade e limitação da sua pessoa e não da sua santidade. Sou testemunha, e não única: inúmeras vezes flagrei-o a falar e a agir amorosamente de e para todas as pessoas das quais tenha em algum momento falado mal ou sido grosseiro. A primeira delas, minha mãe amada, à qual a seu modo, dia sim, dia também, ele declarava amor: não por acaso, seu último sonho consistiu em celebrar os cinquenta anos de serviço cristão por intermédio do sacramento do matrimônio.

Meu pai jamais se permitiu ser vencido pela mágoa ou ressentimento, até quando motivos foram dados. Em sua simplicidade, seu ser amoroso e fervoroso, o sorriso contagiante não eram para visitas e parentes verem: era para todos, todo dia, o tempo todo. Até seus momentos ruins – e todos os temos – eram logo e facilmente vencidos. Ele tantas vezes sequer sabia o que dizer e nem precisava: sua presença, lembrança e testemunho bastavam para acalmar e pacificar.

Na última conversa que tivemos, horas antes do derradeiro AVC, minha mãe e avó ao lado, a partir de perguntas que os três fizeram, nós falamos de teologia, liturgia, religiões, formação pessoal, profissional e política durante três horas. Sem sabermos que seria a última, ele disse o quanto gostava daquelas conversas comigo e o quanto aprendia. Acho que ele não percebia a troca que fazíamos: se lhe passava conhecimento, ele me passava piedade e pureza, sem as quais todo conhecimento resulta em nada. Ele as tinha demais e eu as tenho de menos. De um ano para cá, além de aprender que eu também não percebia suficientemente o quanto me ensinava, enquanto eu é que pensava ensinar algo a ele, sinto-o mais presente do que nunca, para além de sua aliança matrimonial que passei a carregar pendurada no peito.

Nunca disse o quanto sofreu para aceitar o filho envolvido em atividades que ele nem sabia existir, ou, as tinha inicialmente por incompatíveis com uma pessoa normal. De tanto ler meus escritos, me escutar e conversarmos, conversar com outros e escutar deles algo a meu respeito, e como absorveu e interpretou, aprendi outra de suas grandes lições: se não entendia plenamente minhas escolhas e modos de realizá-las, sempre amou, confiou e abençoou o filho e suas escolhas. De sua aparente fragilidade de homem com pouco estudo formal brotava uma atitude concreta, constante e fascinante, que somente as pessoas realmente notáveis desenvolvem: aceitar o outro como ele é!

Se inúmeros cristãos e outros vivem na não percebida indigência de pedir mais ou só para si ou seus amados, barganhar, reclamar e até exigir de Deus, meu pai viveu de agradecê-Lo. Quando pedia, era em favor dos outros, amados ou não, conhecidos ou não, tidos por bons ou não. Meu pai, como quase todos, não saberia explicar o que é participar do sacerdócio de Jesus e da Sua oração. Entretanto, em sua abnegação, respondeu com sua vida a pergunta que na canção do padre Zezinho, “Amar como Jesus Amou” é o refrão que responde: “o que é preciso para ser feliz?”

Meu pai não pedia para si, no entanto, ganhou, sob o jeito verdadeiramente cristão/ ético de ser, que é pedir sinceramente em favor de outro e, exatamente por isto, sentir-se tão agraciado ou mais que aquele que parecia ter sido o único beneficiário. Em meus trinta anos de serviços visando ajudar ao próximo, se na primeira metade Jesus, Sua Igreja e doutrina oscilavam entre coadjuvantes a figurantes ou nem isso, da segunda metade para cá são cada vez mais protagonistas. A conversão tem sido minha e a oração para que assim seja foi e tem sido também dele. Meu pai aprendeu a rezar como para todos é possível e poucos se esforçam e conseguem: decoradas ou espontâneas, silentes ou faladas, individuais ou comunitárias, suas orações eram expressão de entrega, aceitação, alegria, não realizadas por obrigação e sim com satisfação, uma necessidade vital crescente e indispensável, mais que o ar de que precisamos para respirar. Portanto, cada vez que algo do que faço ajudou alguém, o mérito foi da vontade e atitude da pessoa, fui mero instrumento, cuidado pelas zelosas orações também de meu pai. E assim continua sendo: reitero, sinto e creio.

Durante um mês, Deus permitiu que muitas das pessoas que gostavam e amavam meu pai se despedissem dele. Sempre rezei a Deus que fosse feita a Sua vontade e que a minha consistisse em aceitar a Sua, agradeci a honra de viver 48 anos sempre ao seu lado, próximo e sem brigas. Agradeci ao meu pai, disse o quanto e quantos o amavam e que era uma honra e uma alegria ser convicto de que brevemente ele estaria com Jesus que ele tanto testemunhou. Já a partir dos primeiros dos seus últimos trinta dias de amor entre nós, experimentei dizer o que ele dissera ao seu pai, avô João, há umas duas décadas: “Vai com Deus, pai!”

E eu, que muito disse que poderia ser ateu ou mais um crente superficial de alguma das tantas religiões, seitas ou filosofias a disposição, ou poderia inventar a minha para satisfazer bolso/vaidade, não sou devoto de qualquer santo e sou crítico de gente que é mais supersticiosa que devota, de um ano para cá aceitei sucumbir à crescente vontade de tirar os limites que me são convenientes, com todos os riscos e consequências. Sinto, não me importando de ser tido por outro supersticioso, que Deus, em sua perfeição deu ao meu pai o presente da eternidade na hora certa: para ele, por merecimento; para seu filho, por necessidade de melhorar e oportunidade de ser ajudado por mais um intercessor.

Os membros desta grande família têm seus amados saudosos e vários são comuns a muitos de nós. Um modo de honrar cada um deles é continuarmos a nos dar bem, respeitando-nos em nossas diferenças, pela frente e pelas costas, aproveitando os momentos juntos, fazendo e contando histórias do nosso amor familiar aos mais jovens: menos com palavras, mais com testemunhos. “Saibamos deixar um no outro uma saudade que faça bem!”

 

José Carlos de Oliveira

jc@radioplena.com.br – fb.com/oliveirajosecarlos 

Publicado originalmente em 29 de março de 2016