a olhos

Por causa do artigo “Com Deus a gente só ganha, mesmo quando perde!” fui convidado a falar para grupo de familiares que se recuperam da perda recente e traumática de entes queridos. Daquele encontro resultaram memórias que após organizei no presente artigo. A mensagem é a mesma, inclusive, com ponderações que se repetem. Publico, pois, para alguém, talvez, a mesma mensagem com outras palavras poderá ser mais compreensível e útil.

Creio que uma das incontáveis maneiras de Deus nos mostrar Sua bondade é providenciar que alguns de nossos mais amados sofram fisicamente durante semanas, meses ou anos, preparando-os para ir e preparando-nos para ficar, até que chegue nossa hora derradeira; dando-nos incontáveis ocasiões para nos despedirmos da presença física, que doerá no início, virará saudade que não passará nunca, nem a esperança do reencontro para sempre. Por que uns se vão logo, de repente ou vivem enfermos, e outros são longevos ou vivem saudáveis a sabedoria Divina explicaria perfeitamente, enquanto nós só conseguimos especular. Do amor perfeito de Deus conseguimos perceber e entender minúsculo fragmento e este para nós é fartura, bastando aceitar, saborear, compartilhar e reconhecer que dimensionar o todo do que é eterno é tão impossível quanto desnecessário.

Diante de grave doença até os mais fieis tendem a questionar Deus: Por que aconteceu comigo? Por que com meu ente querido? Por que não a doença na casa dum estranho, daquele corrupto ou de quem não gosto? Por que agora?

Tendemos a pedir que Ele recupere o quanto antes a nós ou aos nossos amados acidentados ou enfermos. Creio que essas esperadas solicitações o Pai já as conhece antes que abramos nossas bocas e corações, e as acolhe amorosamente. Creio, Ele prefere que nessas situações extremas comunguemos da oração que resume singela e maravilhosamente a Boa Nova que Jesus viveu plenamente antes de resumi-la em palavras: “Seja feita a Vossa vontade!”

Quanto mais avançarmos em idade, maiores serão nossas perdas de entes queridos; no futuro seremos a perda deles. O livre arbítrio com que Ele nos presenteia permite vivermos escolhendo mais ou somente pedir, exigir, reclamar e brigar com Ele nos momentos nos quais mais quisermos que seja feita a nossa vontade: perigosamente contradizendo, sem perceber, as virtudes que caracterizam o crente em Deus. Ou, para as mesmas situações, ainda que assustados, inseguros, indecisos, chorando, com saudades, nos esforçarmos para aceitar que seja feita a vontade Dele: seguramente condizendo com, mesmo sem perceber, aquelas mesmas virtudes – fé, esperança e amor.

Creio que podemos perguntar à vontade a Deus tanto quanto devemos entender serenamente que Ele nos responde se, quando e como quer, que nem sempre perceberemos, entenderemos ou gostaremos das respostas. Se, porém, apesar das nossas limitações, de tantas injustiças e situações humanamente inexplicáveis, escolhermos crer que a vontade Dele é realizar o melhor para nós e os outros, então, tudo prossegue bem, até quando for ocasião de entristecer, continuar, recomeçar e perseverar sem outro dos nossos queridos e amados que se foram: cremos que eles chegaram antes onde só o amor existe e basta, após nos ajudarem a fortalecer este mesmo amor que aqui necessita da fé e da esperança de que continuaremos com a oportunidade de merecer um dia reencontrá-los na a eternidade junto do Eterno.

Creio que só com minhas qualidades jamais saberei se estou próximo ou distante do acerto quanto ao que acabo de escrever. Creio, apesar disto, fiz o que se espera do crente em Deus cada vez que temi ou soube da morte iminente de alguém que comigo compartilhava amor e escolhi rezar para que fosse feita Sua vontade, dizer a Ele que me esforçaria por aceita-la, mesmo se tivesse de chorar a perda física; fiz orações de agradecimento pela oportunidade de amar e ser amado até aquele momento. E quando ao lado do leito de quem lentamente consumava sua passagem, agradeci pelo presente de poder fazer uma despedida por etapas. Etapas de santificação, nem sempre percebida e bem aproveitada, inevitavelmente presente: minha, do amado que se foi e dos demais que comigo permaneceram.

 

José Carlos de Oliveira

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Publicado originalmente em 30 de agosto de 2016