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Além de nominar um dos Sacramentos de Cura, o vocábulo penitência indica uma virtude.

A virtude da penitência é essencialmente interior, motivo pelo qual se diferencia atitude de ação: esta vem da aparência, do entendimento/compromisso raso ou equivocado; aquela nasce, cresce e permanece no coração e na mente, com entendimento/compromisso profundo e coerente. A Palavra alerta: “Rasgai vossos corações e não vossas vestes” (Jl 2, 13).

A virtude da penitência é uma disposição íntima e fiel para reparação dos pecados: estes geram as piores privações, dores e sofrimentos, pois afastam de Deus; é evoluir do desejo para a vontade de não pecar. O pecado resulta da nossa atitude real, disfarçada ou confirmada pela nossa ação aparente. Pelo livre arbítrio indissociável do Plano de Deus, pode o pecado ser substituído por atitude oposta correspondente ao que Jesus sentiria, pensaria e faria se estivesse em nosso lugar (CIC 1430 a 1433; 2100).

A virtude da penitência e o Sacramento da Penitência (CIC 1440 a 1498) são interdependentes, inseparáveis. A validade e os frutos do Sacramento precisam de sinceridade (inerente à virtude): no arrependimento, na vontade e propósito de reparar os males causados e não reincidir.

Buscar o Sacramento da Penitência apenas para sair do “limite do cheque especial” a fim de logo voltar a usá-lo, ao invés da reta determinação de tudo fazer para não mais entrar no “negativo”, é não entender ou não querer se comprometer com ser imagem de Jesus.

Há quem prefira a conveniência de que “aceitar Jesus” bastaria para ser divinamente perdoado, sendo desnecessária a penitência em suas vertentes virtuosas e sacramentais. Se garantir livre de precisar, por exemplo, restituir dinheiro ou material que se furtou ou roubou, de pagar credores dos quais se é caloteiro, de reparar mentiras, calúnias e outras trapaças que se criou e acobertou: em que isso, em nome de Jesus, corresponde a ser conforme Sua imagem?

À parte do que seja irreparável, restando almejar e receber a misericórdia divina, se dispor a apenas esconder a própria sujeira sob o tapete e vez ou outra o levantar para desfrutar dela é conservar parceria com o pecado. Se nos é acessível depreender que a misericórdia divina é eterna, nos é impossível saber como ela é divinamente exercida: somos livres para ser ou parecer imagem de Jesus e Deus é livre para saber se somos o que parecemos. A virtude da penitência demanda que nosso parecer corresponda ao nosso ser.

Jesus começa sua pregação dizendo: “Fazei penitência, porque está próximo o Reino dos céus” (Mt 4,17). Não refere a uma data: se está marcada nenhum humano sabe e os que disseram saber erraram. Refere à evidência de estar tão próximo que o podemos edificar em nosso coração e mente. A virtude da penitência compreende que privações, dores e sofrimentos são tão inevitáveis quanto o amor: este e aquelas, quando não são apartados, aproximam de Deus. O virtuoso penitente não lamenta, não distorce e não aumenta a dimensão das situações difíceis que vivencia, sejam breves ou longevas: sua vivência tem por norte o amor, a maior das virtudes, irretocavelmente referida por São Paulo (1 Cor 13, 1-13).

A amorosa virtude da penitência alicerça suas práticas – jejum, esmola e mortificação – e mudam-nas de ações meramente supersticiosas, exageradas ou hipócritas (Mt 6, 1-7.16), para atitudes por  vezes aparentemente solitárias e realmente interiores e solidárias, típicas de quem renunciou a si mesmo, tomou sua cruz e O tenta seguir. Cruz é sinal de vida eterna, contém as virtudes da fé, da esperança e do amor, e virtudes edificam a santidade do pecador que se dispuser. A oração é também penitência e, quanto mais encher o interior do penitente, mais transbordará em favor do próximo. A penitência converte, tendo por alimento a Eucaristia, o Santo Livro… (CIC 1434 a 1439).

Virtude e práticas penitentes ajudam a definir o que renunciar: nem tudo que se quer é o que se precisa, nem tudo que se pode é o que se deve fazer (CIC 2043); tudo que vem de Deus é bom e justo, até quando inicialmente achamos que não. Por isso, precisamos viver de arejar e melhorar nosso âmago e nossos hábitos: “ou a alma subjuga o corpo, ou o corpo escraviza a alma” (Santo Afonso de Ligório). Deus a todos quer salvar, porém, a cada um cabe fazer sua parte: “Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti” (Santo Agostinho; CIC 1847).

Nós nos podemos aplicar algumas penitências e os imprevistos da vida nos impõem inúmeras outras. As que nos aplicamos são para nos lapidar, as que nos são impostas também, e, mesmo a estas, que nem sempre entenderemos e superaremos completamente, cabe-nos aceitar serenamente; e, por dificílimo que o seja, por vezes, agradecer. A virtude da penitência e suas práticas clarificam abundantemente o que diz Santa Rosa de Lima: “fora da Cruz não existe outra escada para subir ao Céu”.

José Carlos de Oliveira

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Publicado originalmente em 24 de março de 2017