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Meu pai desde jovem não era dado a dizer palavrões e quanto mais avançava em idade mais esta característica se acentuava. Desde jovem era dado a orações e conforme a idade avançava mais orações fazia.

Dentre as sequelas do seu primeiro AVC, então com pouco menos de 60 anos, destacava-se a perda da memória curta ou imediata, somada com sua ingenuidade, aceitação da brevidade e da beleza da vida com um bom humor irretocável, transformando-o num homem ainda mais amável e respeitável, além de folclórico e caricato. Outra “sequela” passou a ser uma expressão chula, grosseira, anteriormente inexistente ou rara e acidental no seu vocabulário, repetida dúzias de vezes ao dia, todos os dias, mesmo nas ocasiões mais inadequadas e propícias a grandes constrangimentos que ele jamais percebia ou dava de ombros. A expressão vulgar que virou um de seus bordões era manifestação de alegria, satisfação, surpresa etc, jamais com a intenção de ser deselegante. Dentre incontáveis exemplos, um sempre lembrado: ele e nós (filhos, esposa, netos, nora e genro) fomos almoçar na casa de uma de suas irmãs; domingo, ao redor da mesa, logo após a oração de agradecimento pela mesa farta, ele estava tão feliz, que se expressou verbalmente, diante da irmã dele, freira, e de mais umas quatro ou cinco freiras: “Puta Merda!”

“Puta Merda” dentro da igreja, antes ou após uma oração ou conversa séria e emocionada era tão previsível quanto Curitiba ser capital do Paraná, que com o tempo simplesmente nos deixamos vencer e passamos a curtir. Quanta vez escutar dele um sonoro e gostoso “Puta Merda” foi motivo de alegria, de satisfação. Quem o conheceu um pouquinho sabe.

Acontece que cometemos a injustiça de citar só o bordão feioso: antes e após o primeiro AVC (o segundo o levou fisicamente uns 12 anos após) ele conservou e intensificou outra expressão que também podia ser tida por seu bordão, e seguida de uma atitude correspondente e tão tocante quanto. Hábil na arte de aceitar a vida como ela é e agradecer mais que reclamar, também não passava um dia sem dizer mais de vez, grato: “Graças a Deus!” E, incontinente, levantando a aba do seu boné, quase sempre sobre seus cabelos finalmente completamente brancos, em singela e sincera manifestação de respeito para com o Criador.

Hoje, 29 de março de 2017, são dois anos que pela primeira vez tomei-lhe emprestado o bordão e disse aos familiares que ele bem poderia chegar lá no Céu e dizer: “Puta Merda, Jesus, como é bonito aqui”!

Graças a Deus.

José Carlos de Oliveira