A enfermidade das visitas, sorrisos e promessas três a seis meses antes do outubro com eleições!

De uns meses para cá e cada vez mais os vereadores que se elegeram garantindo que são desta região têm aparecido ou se fazem representar até em reuniões comunitárias nas quais não tiveram tempo de comparecer durante os três anos e meio anteriores. Que bom que agora podem aparecer, né?

Como suas agendas surpreendentemente agora lhes permitem, até seus humores melhoram: sorriem mais, cumprimentam mais, tiram fotos, fazem selfies, se colocam a disposição para tudo e homenageiam centenas de eleitores. Fico até preocupado, pois, como ficam tão bonzinhos e não sabem dizer não, aceitam tudo quanto é pedido, prometem tudo quanto é coisa, só para não ter de dizer não e explicar que quase tudo que lhes é pedido e que prometem não tem nada a ver com as atribuições de vereador…

Como não conseguem cumprir as promessas que fazem, acho, devem sofrer tanto que, constrangidos, precisam de uns três anos e meio para se recuperarem e criarem coragem para voltar aos eleitores, prestar-lhes contas dizendo que não fizeram isto ou aquilo por culpa de alguém que naquele momento não era do mesmo partido ou não liberou verba e deixou dívidas, agradecer-lhes pela confiança dada na urna e pedir-lhes, por gentileza, uma nova chance, pois, agora sim, vão cumprir tudo que prometerem, não importa o que…

Impressiona o número de conversões ao cristianismo nesta época: o que se descobre o quanto os vereadores são católicos, protestantes, pentecostais, desde criancinhas, por exemplo, é uma grandeza. Só não entendo por que cada vez que tentei perguntar por que não os vi lá na comunidade religiosa regularmente, e tentei uma conversa fundamentada com eles sobre a doutrina que dizem seguir, as celebrações litúrgicas e atividades pastorais das quais deveriam ser conhecedores e presentes, só dissimularam, desconversaram, falaram tolices e absurdos; acho, deve ser por que suas conversões também acontecem após um deserto de três anos e meio, seguido duma providencial atração que deve ser provocada por algo transracional, sobrenatural contido no formato ou cheiro da urna eleitoral. Seria isto? Se for, deve ter algum efeito colateral, que, quem sabe, explique a motivação para que vários sejam num mesmo dia, a depender do local e do público, católico, pentecostal, espírita, sincretista, budista, hinduísta, xintoísta, ateu, agnóstico…

Talvez, seja o mesmo efeito que faz com que essa gente ajuste o discurso, sem receio de contradizer o discurso anterior, e oscile entre sentar no colo da oposição ou da situação, dependendo de questões que não costumam ser ditas abertamente aos eleitores: seria outro efeito colateral que resulta em constrangimento ou timidez para pedir ajuda para curar eventuais oscilações emocionais?

Ah, justiça seja feita: não são apenas os vereadores desta região que sofrem desses probleminhas e precisam da nossa compreensão de eleitores. Os das demais regiões também. Bem, vereador é da cidade, e não do bairro. E eu é que devo ser burro por não entender as razões pelas quais eleitores exigentes demais indelicadamente dizem que vereadores costumam se portar como donos dum determinado bairro ou somem dele, conforme as suas conveniências eleitoreiras…

Como sofrem os vereadores, e como é providencial que sejam bem remunerados para custear seus indispensáveis remédios e tratamentos para suportarem em média três anos e meio de uma espécie de repouso e uns três a seis meses de intensa saúde, simpatia, atividade e expectativa de que nos quatro anos seguintes tudo vai ser diferente. E não se fale que essa gente não tem esperança e perseverança: uma porção está há décadas tentando cumprir ao menos quatro anos de saudáveis e regulares atividades legislativas.

Deve ser doença altamente contagiosa e igualmente cíclica: você nota quantos milhares são acometidos pelos mesmos sintomas? Não entendo: se virar vereador costuma gerar a enfermidade que resulta no mínimo três anos e meio de afastamento, entre disfarçado e descarado, do serviço e do eleitor, e apenas três a seis meses de saúde, vitalidade, simpatia e atração pelo eleitor e por fazer promessas que se sabe de antemão que não serão cumpridas, por que tantos querem se submeter? Talvez, a bondade e solidariedade deles sejam tamanhas, que minha mediocridade não me permita entender…

Agora, não se fale mal do eleitor em geral: como tem gente de coração bom a compreender e dar nova chance aos pré-candidatos esperançosos de finalmente conservarem a disposição de hoje, após outubro, quando costumam voltar os sintomas que geram sumiço, apatia, distanciamento do eleitor e coisas assim…

Sugiro não votar nas habitualmente vítimas desses sintomas ou males: pelo bem deles não permita que permaneçam sob tão grande sofrimento. Diante da urna eleitoral, ignore-os e contribua para que ano que vem vão fazer algo que lhes permita trabalhar quatro anos durante cada quatro anos, e não apenas três a seis meses anteriores ao mês de outubro com eleições.

Entre os que nunca foram e vivem tentando ser, pelo bem deles, pesquise bem: ao surgirem os sintomas, também ignore todos na urna eleitoral.

Com certeza, no meio dessa multidão de enfermos, há uns gatos pingados saudáveis e com anticorpos suficientes para aguentarem servindo bem durante os próximos quatro anos.

José Carlos de Oliveira

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