O mundo real

Moro em rua com oito casas. O caminhão da coleta de recicláveis passa nela e o de orgânicos passa pelas esquinas formadas com as duas transversais; minha casa está numa delas. Além dos resíduos da minha e das três seguintes, as famílias de mais duas casas da outra metade da rua colocam seus restos na esquina lá de casa. Por vezes, também outros vizinhos e transeuntes…

Comum a praticamente todos?

Não separam orgânicos de recicláveis ou não o fazem direito; desperdiçam alimentos; se é cedo demais, não tem coleta por não ser o dia ou por ser feriado, raramente aguardam com seus restos em suas casas; sobre a lixeira ou no chão o capricho é pequeno no ato de largar seus restos; afora a vizinha ao lado, eventualmente, os demais jamais agem para eliminar a bagunça do lixo caído e espalhado e quanta vez resultante do desmazelo com que o deixaram lá – outros quatro ajudavam, mas, dois, pela avançada idade e enfermidades não podem e nem devem ajudar, e dois faleceram.

Eu e família, que tentamos não desperdiçar e fazemos a separação dos recicláveis, somos obrigados a constantemente ver, cheirar e catar o lixo deles e de quaisquer outros. Não desistiremos de cuidar, ainda que não mais como deveríamos e gostaríamos. Imagino quanta vez cidadãos melhor civilizados depararam com a esquina bagunçada e atribuíram a nós adjetivos desabonadores. 

Na mesma esquina, do outro lado da rua, junto à grade do Centro de Esporte e Lazer do qual somos vizinhos, vira e mexe alguém da vizinhança ao redor da praça larga ali seus restos, quase sempre, igual quase todos, de forma sorrateira e nem sequer acondicionados num saco ou caixa.

Cachorros à procura de comida a rasgar embalagens; coletores de recicláveis (não todos) não reorganizam embalagens após as vasculharem em busca dos materiais que lhes sirvam; e alguns desses e uns problemáticos largam sacos e tudo quanto é material em quaisquer lugares.

Senhoras e senhores aparentemente melhor resolvidos social e financeiramente, com seus carrinhos de mão, camionetes e outros utilitários próprios ou terceirizados, ou dos porta malas e pelas janelas dos seus carros ou carrões, largam em terreno público ou privado, calçada, rua, estrada, nas margens ou fundos de riachos, rios, mar etc tudo que não lhes sirva mais.

Comum a praticamente todos?

Dizerem-se honestos, bons cristãos ou outros crentes e reclamar da incompetência e desonestidade do poder público e outros dos quais discordem ou não gostem. Sim, entre servidores públicos concursados, eleitos e comissionados uma porção não serve para nada e se serve dos outros, no entanto, assim é em todos os setores e níveis da sociedade.

Para esta e outras questões, numa analogia condizente, com exceções, somos hábeis em varrer o lixo para dentro do bueiro (o que literalmente acontece e é fácil flagrar) e depois culpar a prefeitura, a Sanepar ou alguém por entupimento, fedor e alagamento e exigir-lhes solução imediata, mas, ai de quem sugerir ou cobrar que façamos a parte que nos cabe ou afirmar que nossa omissão ou ação infame causou parte ou todo o problema!

Em criança aprendi que o planeta Terra poderia ser chamado planeta Água. Estamos transformando em planeta Lixão e, a continuar como tem sido, antecipadamente será planeta Morto – após o óbito dos seus assassinos, autoproclamados únicos seres racionais…

A respeito, incontáveis exemplos. Eis um: ilhas de lixo espalhadas pelos oceanos, especialmente, o plástico, presente em todos os mares e nas ilhas mais remotas, a enfeiar paisagens paradisíacas e a contribuir para a morte e até extinção de cada vez mais espécies animais.

Educar ou reeducar adultos acerca daquilo que qualquer criança minimamente bem formada já     aprendeu costuma não frutificar, frutificar pouco ou demorar a acontecer: esses adultos continuam sendo maioria, a educar filhos e netos com valores e hábitos, em aspectos essenciais, equivocados, superados ou superáveis. O primeiro e pior dos lixos sempre foi e será aquele que nós depositamos nas mentes e vidas uns dos outros: preconceitos, futilidade, obtusidade, acomodação, indiferença, egoísmo, preguiça etc; o que é revelador do nível da civilidade com que cada um produz, descarta e cuida até que seja recolhido o lixo ou resíduos – o seu e o dos outros, vizinhos ou não!

Quem é dotado de bom caráter, quanto mais se incomodar com a generalizada falta de ética, excesso de corrupção e com a sujeira literal e figurada contidas no comportamento que emporcalha a esquina da minha casa e a praça em frente, tanto quanto o planeta e as relações interpessoais, mais esforçará para ser menos vicioso e evoluirá para ser mais virtuoso; com ou sem testemunhas, não por temor de multas, flagrantes ou demissão, sim pelo prazer e consciência de ser e agir como um cidadão plenamente digno e verdadeiramente notável.

Num antigo artigo lembrei a lição da garça, que me ensinou o amigo Etelvino, vulgo Barraco. Acho que posso adequá-la a este também, sendo exemplo valioso a quem quiser entender e dela se valer:

Gente que realmente se edifica dotada de bom caráter e boa formação, apesar de seus limites e falhas, age como a garça que, para ser fiel à sua natureza e cumprir sua missão, frequentemente precisa estar no meio da sujeira, mas, permanece limpa…

Publicação original em 29 de setembro de 2023

José Carlos de Oliveira

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