Tiranias literais e figuradas

Os tiranos anônimos, menos conhecidos e menos influentes, que prejudicam pessoas, famílias ou grupos, e os famosos e poderosos que prejudicam uma, várias ou todas as nações, sabem que não são unânimes, porém, canalhas, doentios e ególatras, ignoram o contraditório, abafam ou acabam com os descontentes, diferentes e divergentes: quanto mais inteligentes e carismáticos, mais podem infestar as entranhas dos poderes constituídos, da grande mídia e da internet, das religiões de verdade e das de fachada; os mais dissimulados são os mais perigosos. A História e o presente são fartos de situações geradas por esses indivíduos maléficos e que estão entre os protagonistas a garantir a manutenção de um mundo altamente injusto e desigual.

Algoritmos que bisbilhotam, analisam e induzem; transição da comunicação de massa para a segmentada e de nichos; inserção não percebida ou passiva em bolhas que iludem multidões incautas a acharem-se certas e especialistas em quase tudo e quase todos; satisfazer a opção preferencial dos usuários comuns pelos textos, vídeos e áudios curtíssimos e abordagens menos ou nada aprofundadas e ponderadas, quanta vez, tendenciosas e sequer verazes: estão entre as sutilezas da maravilhosa internet impostas a todos os internautas, que não são necessariamente negativas, no entanto, convém o conhecimento da sua existência e saber lidar com elas como o protagonista que se vale da tecnologia para se desenvolver, e não como o figurante que sucumbe mansamente à ela, que, tornada tirana por causa da formação frágil do descuidado, o conserva, embora conectado, atrasado, obtuso, alienado.

Agora se tem acesso a conteúdo inesgotável. No entanto, conteúdos úteis, arrazoados e aprofundados, que edificam pessoas e profissionais notáveis e diferenciados; que exigem o apreço pelo esforço do estudo e do trabalho constantes, consistentes e coerentes; precisam de tempo, correções, revisão de prioridades e algumas renúncias: continuam desinteressantes para as massas. O imediatismo e a procrastinação – cada qual em seu contexto – são dois dos mais comuns, tolos e cruéis tiranos.

No Brasil, cerca de 52 milhões dos jovens na faixa etária de 14 a 29 anos não concluíram o ensino médio (*). Mesmo com a mescla da internet com os meios anteriormente apenas analógicos, ainda são dez milhões de brasileiros analfabetos (*). Entre os alfabetizados, a cada semestre, em torno de um terço dos que concluem ensino fundamental, médio, superior e pós-superior nem sequer sabem ler e escrever com suficiência – fortíssimo indicativo da pífia qualificação geral do formando: não é casual que cerca de um terço dos brasileiros ainda sejam analfabetos funcionais (*) – outras fontes estimam em dois terços – e muitos nem sequer sabem o que é isso. O terceiro analfabetismo é o digital (pessoas ainda pouco desenvoltas na informática e internet); três tiranos, o mais nocivo é o analfabetismo funcional e o de mais difícil eliminação: raros são os tiranizados por ele que, diante do próprio espelho, veem uma de suas vítimas…

Ética e virtudes continuam abundantes em discursos, pregações, falações e encenações, mas, na hora das tentações nossas de cada dia, quanta vez são deixadas de lado pelas pessoas de bom caráter; e revelam-se inexistentes nas de mau caráter: este, indissociável de todos os tiranos – dos pés de chinelo e de periferia aos de alcance nacional e internacional.

Sob essas e outras circunstâncias, nas vicissitudes do cotidiano, as pessoas vivem submetidas às nuances da natureza humana que desafiam a lidar com a impossibilidade da unanimidade: que só existe no dicionário, na esperança do ingênuo e no discurso do mentiroso. Unanimidade é tão inevitável quanto indispensável e saudável para o desenvolvimento pessoal, profissional, institucional, social e de toda a humanidade, o que inclui conviver em harmonia na diversidade: “no que for igual caminharemos juntos; e as diferenças a gente respeita!”

Povos e multidões são vítimas de tiranias que assassinam ou impõem sobreviver na indigência, ante a impotência ou a indiferença dos outros – constrangido, incluo-me, pois, mesmo solidário e participativo, poderia agir mais…

Se nós somos privilegiados por não nos ter sido imposta tirania impossível de eliminar só com nossa vontade e atitude, decidamos e esforcemos para começar a eliminar as que nos são possíveis, como preguiça, inveja, vitimismo, achismo, fundamentalismo, consumismo, individualismo, terceirização de responsabilidades – se as identificarmos e reconhecermos como tais – pois, querem se impor como proprietárias dos nossos temperamentos, mas, não servem nem como inquilinos sazonais em nossas mentes: deveriam ser como visitas chatas e inconvenientes, a dispensar com rapidez, educação e determinação!

Escolher recusar a arapuca tirânica da agilidade com superficialidade típica das redes sociais virtuais e reais, parar decididamente de dar-lhes importância e tempo exagerados, controlar e não ser controlado por elas, e não se limitar a futilidades online e presenciais. Em assim sendo, por consequência, esforçar criteriosa e determinadamente para começar a eliminar a incapacidade de ser crítico do que se lê, assiste e escuta: crítica, na verdadeira acepção do termo, é construir-se – permanentemente – capaz de aprofundar um assunto, com estudo, pesquisa, preparo, baseando-se em argumentos e fundamentos, se não inquestionáveis, consistentes (o que é o oposto do pensamento crítico miserável que prevalece no mundo online e no presencial).

Se você leu até aqui, mesmo que após refletir venha a discordar das ponderações e concluir possuir outras e melhores, parabéns, de modo literal e figurado: aproveitou a oportunidade para tentar agregar valor ao seu sentir, pensar, agir e ser!

* PNAD Contínua – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, IBGE (Educa + Brasil, 03/2023; EBC, 06/2023; BR 61, 22/11/2023)

Publicado originalmente em 1 de dezembro de 2023

José Carlos de Oliveira

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